Entrevista com Freusa Zechmeister: Criando Figurinos para o Grupo Corpo - 22/06/2007

Origem: Laboratorio, a enciclopédia livre.

por Fernanda Lopes e Luana Jardim


Freusa Zechmeister é uma reconhecida arquiteta que, além de efetuar belíssimos projetos em sua área, é a responsável pelos magníficos figurinos do Grupo Corpo. Com extrema simpatia e bom humor, ela nos concedeu esta entrevista, para contar como se deu o início de sua trajetória, junto ao Corpo, e dividir conosco um pouco da história de sucesso trilhada por ela, pelos irmãos Pederneiras e por Fernando Velloso, ao longo desses anos de parceria.


RETRÓS: Qual sua formação acadêmica e profissional? Como se deu sua entrada, no mundo do figurino, tratando-se de uma arquiteta? Você desenvolve outros projetos de figurino além dos feitos para o Corpo?

FREUSA: Minha formação á em Arquitetura e Urbanismo, pela UFMG. Em 1975, fiquei muito amiga de Fernando Velloso que fazia aula com os Pederneiras e me levou para assistir os ensaios de “Maria Maria”, quando me encantei, mas fiquei só como espectadora, pois um grupo argentino estava produzindo o espetáculo. Mais tarde, Fernando começou a operar a iluminação do Corpo em turnê pela Europa, em 78, quando viajei pela primeira vez com eles e, então, teve início nossa parceria. Quando Rodrigo (Pederneiras) desenvolve coreografias para outros grupos no Brasil ou no exterior (como Ópera de Berlim ou Balé de Montreal), crio os figurinos. Já produzi cenário e figurino para óperas realizadas por Kalil no Teatro Municipal de São Paulo e Rio de Janeiro, também.


R: De acordo com sua declaração para o site do Grupo Corpo, “Não há diferença entre criar um figurino, um espaço ou um jardim”. Gostaríamos de saber o que representa, para você, ser uma profissional multifuncional e se existe alguma relação entre as criações de cada área, que são desenvolvidas durante um mesmo período.

F: Figurino é como compor um espaço, porém com uma diferença: ele mexe. Contudo, mesmo com essa afinidade entre si, meus trabalhos de arquitetura, paisagismo e figurino não influenciam diretamente um no outro, pois sigo o que o cliente ou espetáculo “pedem” e cada um possui desejos, expectativas, gostos e necessidades singulares. Mas, obviamente, como sou uma pessoa só, os conhecimentos que tenho de cada área muitas vezes se complementam. Quando, por exemplo, quero um decote enorme, mas que não mexa, uso dos conhecimentos de estruturação da arquitetura.


R: Também no site do Corpo, é citado que seu trabalho neste grupo funciona, imprescindivelmente, em conjunto com a elaboração de coreografia, cenografia, iluminação e movimento (tanto dos bailarinos, quanto do espaço físico e da estética desejada como produto final, para o espetáculo). Sendo assim, qual o processo utilizado por você, os irmãos Pederneiras e Fernando Velloso para alcançar, juntamente, um resultado de sucesso e qualidade admiráveis?

F: O trabalho em conjunto é realmente imperativo, para um resultado de qualidade. É necessário que a coreografia e iluminação já estejam bem definidas, para que eu assista a um ensaio e possa criar o figurino. Aí, de acordo com o que vejo, planejo o que produzirei para finalizar de forma adequada aquela composição. E, é claro, existe um diálogo muito aberto e franco entre nós, para que um possa dar opiniões e sugestões construtivas no trabalho do outro, culminando em um resultado harmonioso. Além disso, nos ensaios gerais, anteriores às estréias, normalmente, os bailarinos usam as roupas, para ver se coreografia, luz, cenário e figurino estão como desejados. Fora isso, é essencial que todo o grupo esteja emocionado com o espetáculo. Se não tem emoção, paixão, não sai um bom resultado.


R: Como se dá o processo de pesquisa e produção? Existe uma forma diferenciada de trabalhar com a elaboração dessas peças, para otimizar o efeito visual dos movimentos corporais, no palco? Você é a única responsável pela criação dos figurinos? Acompanha efetivamente o processo produtivo, depois que modelistas e costureiras são encarregadas de executá-lo? Como acontece a seleção da equipe que trabalha com você (quantos são e quem são)?

F: Gosto muito de revistas de moda e livros de arte (mais do que de arquitetura, muitas vezes, pois as formas são mais soltas e a proporção – ou falta dela – assim como os volumes, me encantam). Trago muitas idéias e objetos de minhas viagens e acredito que tudo é fonte inspiração: restaurantes, vitrines, museus, filmes... Fora isso, o pessoal do meu escritório de arquitetura e a Patrícia Galvão, produtora do Paulo (Pederneiras) em São Paulo, também fazem algumas pesquisas e contatos, às vezes, para conseguir certos materiais que quero. Também já tive acesso a muitos espetáculos e aprendi vendo estes figurinos. Eu procuro traduzir, através do figurino e das formas (arredondadas, geométricas, volumosas, esguias, etc) a linguagem do espetáculo, já que é fundamental que haja uma sintonia entre tema, coreografia, iluminação, trilha sonora e cenário. No espetáculo Nazareth, por exemplo, eu utilizei saias amplas e arredondadas, pois tenho a sensação de que o chorinho é um tipo de música “miudinho/apertadinho” e senti a necessidade de ampliar/crescer o volume das vestimentas para dar mais ênfase aos movimentos e contrabalançar com o ritmo contido. Sim, eu sou a responsável pela criação, mas, como citei anteriormente, existe um diálogo entre todo o grupo, para alcançar um objetivo em comum. O processo produtivo acontece, primeiramente, em meu escritório de arquitetura que fica parecendo um ateliê, nas épocas de espetáculo (de dois em dois anos), pois faço algumas moulages e costuras à mão, lá. Mas, posteriormente, como não possuo uma equipe própria, conto com a ajuda do pessoal da Brenda Vaz, Art Man ou da Terezinha Santos e Marli, para modelar e produzir as peças, e acompanho todas as provas de roupa, vendo quais são as alterações necessárias.


R: Em quase todos os seus figurinos é utilizada a malha como uma segunda pele. Qual o motivo para tal escolha de tecido? Há algum tipo específico de malha com que trabalha? É afirmado por você, no site do Corpo, que “Se emprego algum acessório ou detalhe na malha é com a pretensão de reforçar o movimento." Qual o critério utilizado para seleção de tais acessórios e como cada um deles pode influenciar positivamente ou maleficamente na performance da dança?

F: A base parte sempre da malha. Os outros tecidos são complementares, porque a coreografia desenvolvida pelo Rodrigo (Pederneiras) é muito diferenciada, peculiar e com movimentos sutis, suaves que só a malha é capaz de mostrar e realçar. Trabalho com a malha da Santa Constanza e com supplex. Gosto da malha fosca, porque com um tecido que brilha não é possível controlar a luz, que é super importante no trabalho do Corpo. Assim, quando minha intenção é por um brilho naquela determinada peça, para realçar um movimento específico, aplico um tule stretch em cima da malha (o jogo de luz e sombra, utilizado a favor, dá o efeito desejado e só favorece o espetáculo).


R: Quanto tempo, em média, se leva para desenvolver o figurino de um espetáculo? Como é feita a manutenção das peças, caso sofram algum dano durante a apresentação? Quantos figurinos são feitos para cada bailarino? As sapatilhas são diferenciadas/personalizadas ou são sapatilhas comuns que passam por um processo de customização?

F: Na verdade, a produção dos figurinos acontece de forma bastante apertada e corrida, pois preciso que Rodrigo (Pederneiras) já tenha definido o trabalho coreográfico, para que eu possa desenvolver as roupas. Portanto, o desenvolvimento da iluminação, cenário e do figurino é feito em conjunto, o que ocorre em torno de 30 a 40 dias. A manutenção, durante o espetáculo, é feita por mim mesma, que fico nos bastidores com agulha e linha na mão, pronta para o que der e vier. É preciso ter o dom do improviso correndo nas veias. São produzidos 2 ou 3 figurinos, em média, sem contar com as peças sobressalentes que são utilizadas toda vez que os bailarinos suam demais e precisam trocar a roupa. Os sapatos são customizados, sempre partindo de um sapato próprio para dança. Mas, algumas vezes, são desenvolvidos alguns sapatos exclusivos (próprios para dança também, mas com tecidos diferenciados, como os de couro colorido, do espetáculo Parabelo).


R: A caracterização dos personagens (cabelo e maquiagem) também é idealizada e planejada por você ou fica a critério dos profissionais da beleza?

F: O planejamento de tudo é por minha conta. Deixo todas as idéias e criações prontas para serem colocadas em prática.


R: Segundo seu depoimento no site do Corpo, “O figurino é ponto fundamental para uma apresentação de qualidade, pois ele dá alma e anima a performance.” Sendo assim, como se dá o desenvolvimento (processo criativo) de cada figurino para seus respectivos espetáculos e o que você faz para prever como funcionará o diálogo e sintonia entre a coreografia, o cenário e a vestimenta, num momento final?

F: A partir do primeiro ensaio que assisto, já sei o que vou fazer. Planejo tudo em minha cabeça, já pensando no espaço físico (noções adquiridas com o paisagismo e arquitetura) e, quando ponho no papel, já está praticamente tudo pronto, precisando só de alguns pequenos ajustes ou modificações. O figurino acontece em função da percepção do meu olhar, que é bastante minucioso. É necessário que eu veja o DVD da coreografia e a decore, para elaborar o figurino. Outro aspecto importante é da escolha das cores. Quando o clima, sentimento, estilo da coreografia muda, a cor tem que mudar. Uso combinação de cores que não parecem funcionar a primeira vista, mas no espetáculo, dão um efeito fantástico.


Agradecimentos: a Freusa, pela simpatia e boa vontade, e a Wudson Almeida pela gentileza e solicitude.

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