Júlia Panadés. Relação arte e moda - 27/03/2009
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Desenho e poesia “Se não transbordo é porque escrevo até a borda que me faz superfície.” Em entrevista com a artista plástica Julia Panadés, discute-se a dialética arte e moda a partir do pensamento de significação dos objetos. Júlia abre seu atelier-casa e expõe o lado subjetivo de suas obras.
Julia Panadés nasceu em Belo Horizonte, em 1978. Está envolvida com a arte desde a infância, quando estudou em um centro de criatividade de Belo Horizonte. Adolescente, estudou em uma escola paulista, que, em seu método pedagógico possuía oito horas semanais de aula de artes. Após terminar o segundo grau, retornou a Belo Horizonte e graduou-se em Artes Plásticas pela Escola Guignard, que hoje faz parte da UEMG, especializando-se em desenho e serigrafia. Fez pós-graduação pela Escola de Belas Artes da UFMG - onde participa do Grupo Linha, que faz pesquisas em artes plásticas e poesia - e cursou mestrado em Artes Visuais, também na Universidade federal de Minas Gerais. Sobre isso identifica-se na obra “Desenho corpo por que vivo”, na qual Julia usa ferramentas da moda para materializar seu pensamento relativo ao homem enquanto ser social, o uso da roupa como um suporte de caráter contemplativo, não para vestir. A artista constrói vestidos e painéis bordando à mão imagens e palavras. A artista mostra imagens criadas a partir de pesquisas em que desenho e poesia se entrelaçam. São desenhos bordados, feitos sobre papéis ou tecidos transparentes, algumas aquarelas e também palavras, corpos, objetos, estruturas. O tecido usado nas obras é sempre o voil em função da sua transparência que revela o avesso, o erro, o processo de desenvolvimento das peças e a possibilidade de colocar a palavra bordada no patamar de desenho. Segundo ela, a palavra e o desenho são constituídos por linhas que transitam entre signos conhecidos e desconhecidos. Desenho e palavra não se correspondem: “Não se adivinham como legenda ou ilustração. Possuem seus próprios termos e modos de existência. Não se permutam, mas se potencializam mutuamente”.
Durante o bate-papo descontraído em seu atelier Julia revela que desenhos ficam escondidos atrás das coisas e não adianta virar para ver o desenho, o atrás das coisas é escondido. Ele não é igual às coisas, ele é segredo. “Da palavra que quer ser desenho, do desenho que quer ser palavra. Porque palavra de perto perde seu contorno e pede seu desenho. E o desenho, por insistência, revela o seu avesso, a sua palavra.”, diz a artista. A capacidade que se tem de recriar memórias a partir da carga que as roupas carregam, seja por situações vividas trajando-as, ou o cheiro, puído, e até deformações do tecido em função do corpo que ali habita ou habitava é que faz da roupa algo que quer significar e dizer, não apenas vestir.
Mais do que significar os trabalhos de Julia Panadés externalizam impressões de mundo e vivências, rompendo com o significado obvio da palavra e a contemplando como sublimação da forma escrita como desenho. Para Julia o desenhar é um processo de autoconhecimento. “Tenho que ser rápida com o desenho. Com as palavras não, elas são lentas. É só repetir. Para que o desenho fique e não desapareça de mim, ele muito me exige. Exige que eu invente uma forma dele ficar. Senão se esconde atrás das coisas e desaparece. Desenho é vivo, porque é matéria das coisas. O desenho não tem cara, tem corpo. Tem corpo feito de qualquer coisa”. A artista denomina “lugar” todos os seus suportes para materializar suas impressões: “Este lugar existe por pura invenção. É do desenho e da palavra, o lugar. E seria talvez minha a invenção. Simplificando bastante, o desenho e a poesia me habitam. Daí este lugar, por não caber mais em mim.” Para conhecer mais sobre a obra “Desenho corpo porque vivo” veja também a dissertação de mestrado que possui o mesmo nome e a exposição permanente da artista na capital.
Para saber mais sobre a artista http://palavrahabitada.wordpress.com/





