Moda conceitual X Arte Contemporânea - 24/04/2009

Origem: Laboratorio, a enciclopédia livre.

Por Bruna Machado, Letícia Almeida, Nara Goulart e Natália Assis

A polêmica questão começou desde que os limites da arte se tornaram mais flexíveis e subjetivos, com a idéia de ready made de Marcel Duchamp e com a produção em serie de Andy Warhol. Se o artista é quem define o que é arte e o que não é, teoricamente, o estilista na condição de criador, é quem decidiria se sua criação é ou não arte.

O assunto desperta discussão apaixonada de artistas, estilistas, fashionistas e críticos de arte, como o caso de Jose Arantes curador da exposição “A arte do vestir” no Museu do CICA segundo o qual “A Moda enquanto indústria não é nem nunca será arte, na medida em que possui um propósito bem definido: vender. Além disso, a roupa em si possui finalidade (proteção, pudor, conquista) alem de possuir intrínseco em si o conceito da vaidade (mesmo quando vem contestá-la), enquanto a arte é uma expressão livre de qualquer preceito”. Arantes frisa que o fato de não considerar a moda como arte, não e’ um fato negativo. Acredita na importância da moda como moda, sem a necessidade de se escorar em outro suporte.

O outro lado do ringue defende a moda - sobretudo a conceitual - como arte sim. Para a estilista Iza Ribeiro, “a partir do momento em que a peça é construída em cima de um conceito e é o produto da inspiração e transpiração do criador, se emociona quem a vê ou a veste, deve ser considerada uma obra de arte sim.” Em tempo, looks autorais, ou conceituais, resumem todo o conceito de uma coleção em uma única figura, e não tem a venda como finalidade - na maioria dos casos, tais pecas não são reproduzidas. São feitas especificamente para o desfile, para serem apreciadas. A dúvida é: cabe a essa criação ser vista como roupa - pois é construída em moldes que a possibilitam ser vestida - ou como obra de arte - que pode envolver o corpo, mas que não é moda, pois não se incorpora à rotina nem à personalidade do usuário, uma vez que não é vestida, somente observada em desfiles ou exposições.

Como definir, por exemplo, as criações de artistas plásticos que tomam formas de roupas como os ternos gigantes de Nelson Leirner, os parangolés de Helio Oiticica ou o Manto de Apresentação de Arthur Bispo do Rosário? Moda conceitual feita por artistas, ou arte que utiliza um outro universo temporariamente para expressão? E os corpetes feitos de Paes expostos na Fundação Cartier para a Arte Contemporânea de Paris, feitos pelo estilista Jean Paul Gaultier: moda, arte ou gastronomia?

Outras obras ajudam a confundir e a aquecer a discussão, como o vestido desenhado por Salvador Dalí que faz parte do acervo do MASP, sua ligação e criação em conjunto com a estilista Elza Schiaparelli; Leda Catunda e Leonilson que nos anos 80 valeram-se dos códigos da indumentária para compor seus objetos.e as obras de arte, Obras de Hussein Chalayan, Issey Miyake, Comme des Garçons, dentre tantos outros artistas que não se permitem limitações.

O fato é que estamos na época dos territórios indefinidos, da interatividade e da mais completa globalização, e de uma forma ou de outra, os conceitos de arte e moda acabaram interagindo, se misturando e em muitos casos se confundindo - e confundido também as cabeças pensantes dos que tentam determinar o que e’ e o que não e’. Até agora, a única conclusão a que se chega com unanimidade é que não há nada mais confuso do que tentar estabelecer limites entre dois suportes tão subjetivos, e que talvez, a própria discussão seja mais enriquecedora que a conclusão. Nos resta admirar, vestir, e adorar. Afinal, conclusões nem sempre são necessárias. Emocionemo-nos!

Manto de Apresentação de Arthur Bispo do Rosário
Manto de Apresentação de Arthur Bispo do Rosário
Obra “Noivos” de Nelson Leirner
Obra “Noivos” de Nelson Leirner
Criação de Jean Paul Gaultier
Criação de Jean Paul Gaultier
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