Problemática da moda atual 07-12-2007
Origem: Laboratorio, a enciclopédia livre.
por Clara Von e Natália Paulinelli
A sustentabilidade está na moda. Cada vez mais, várias marcas vêm utilizando-se do tema em suas coleções, seja como inspiração ou na utilização de materiais ecologicamente corretos. Contraditoriamente, com esta onda de preservação do planeta terra nos deparamos com uma onda de materiais mais que incorretos, como o acrílico. Sendo assim, nos fica a dúvida de qual é a verdadeira preocupação destas marcas: vender as suas roupas utilizando-se do tema sem fazer nada para colaborar com o meio ambiente, somente divulgando em frases e dizeres a importância de se preservar o planeta, ou divulgar a preocupação com o meio-ambiente, mas preocupando-se em fazer roupas que sejam verdadeiramente sustentáveis, que em todo processo de fabricação haja a preocupação em utilizar matéria prima correta, mão de obra bem qualificada, e a preocupação não só com este material, mas também com que o produz.
Deparamos-nos com marcas que vêm utilizando-se do termo como estratégia de marketing. Muitas delas pregam a preservação, a preocupação com o ser humano e com as próximas gerações, porém ao pesquisar um pouco mais sobre estas, vemos que muitas delas podem até mesmo utilizar algodão orgânico, tratamentos de tecidos que não poluam tanto, mas contraditoriamente utilizam mão de obra escrava, como a mão de obra chinesa que chega a trabalhar mais de 18 horas por dia, 7 dias por semana, sem direitos trabalhistas e até mesmo férias. Qual é a verdadeira preocupação com o ser humano, pois dizem estar preocupados com as gerações futuras, mas não demonstram preocupação com a geração que lhe esta prestando serviço.
Trata-se de um tema extremamente contraditório, pois sabemos que a moda faz parte de uma indústria milionária, que sustenta milhões de pessoas em todo o mundo e ajuda a empregar muita gente pelos quatro cantos do mundo, que vivemos em uma sociedade capitalista, e que para sobreviver no mercado as marcas devem estar antenadas com o que está acontecendo em todo o mundo, com os assuntos que estão sendo discutidos. E é evidente que com esta onda de debates, reportagens e preocupação com o meio ambiente e com o que o homem conseguiu fazer com o nossa planeta, a Sustentabilidade se tornaria um assunto interessantíssimo e de alta vendagem. Só nos resta saber se a moda só quer pegar carona nesta nova onda ou se ela continuará se preocupando com o tema.
Talvez seja difícil para grande parte das marcas continuarem abordando o tema por muito tempo, mesmo que muitas delas realmente estejam preocupadas e engajadas com o assunto, pois a moda é cíclica e para se manter no mercado deve oferecer sempre novas tendências aos consumidores, que estão ávidos por novidade. Além do mais, a moda vem sendo consumida cada vez mais rápido, absorvida antes mesmo de sair das passarelas, e esgotada antes do término das estações, tornando necessária a renovação periódica das coleções.
Pode ser que o tema se mantenha vivo na moda por um bom tempo, ou então até que o mesmo esteja em alta nos jornais e revistas de todo o mundo, sendo comentando por toda a população, mas é impossível fazer com que a moda seja completamente sustentável, pois acarretaria em um aumento excessivo de preços, queda no número de vendas, acarretando em um suicídio mercadológico.
A moda, por acompanhar todos os acontecimentos diários, sofre mudanças para suprir a necessidade de venda-compra, tendo que se renovar periodicamente, mas sempre buscando referências.
"Tudo na moda é referência. Todos os estilistas bebem da mesma fonte. Hoje todo mundo se olha no mercado." Daniela Pinheiro, para a revista Piauí 2007.
A problemática da moda brasileira sobre onde procurar tais referências é cada vez mais visível. A moda brasileira por não possuir uma identidade autoral, busca suas referências na moda européia. Não somente busca tal fonte, como a copia.
Surge então a problemática da moda atual com a qual os profissionais têm que conviver diariamente.
A falta de ética se expande também ao fator do plágio.
Por possuirmos uma herança cultural baseada na cópia da moda européia, a moda brasileira ainda não possui um reconhecimento autoral. As referências que os profissionais de moda buscam vêm da Europa Ocidental.
A população brasileira não valoriza o produto interno. A moda é baseada em parâmetros de comparação. A moda brasileira é uma cópia da moda européia. Não possui um embasamento, nem um conceito. É uma moda imagética, sem um significado cognitivo.
As criações se fixam no empirismo, já que o novo não é aceito. As roupas não têm agregadas à sua criação, um conceito, são rotuladas. Como conseqüência, a moda brasileira se torna uma moda superficial.
As pessoas que a utilizam também são superficiais. Pois, não sabem defender uma idéia.
“Uma das explicações para que a cópia seja tratada com condescendência passa pelas expectativas que a consumidora tem em relação às roupas. ' A mulher que compra um vestido copiado na loja nem sabe que se trata de uma imitação. E se souber, ela pouco se importa', explicou a estilista Karina Sterenberg, dona da grife carioca Ka... ' A compradora quer saber se o vestido ficou bonito, se a fez parecer magra e se o preço é bom". (revista Piauí 2007) .
A política da falta de confiabilidade, devido à não tradição do Brasil no segmento da moda, reflete no pensamento da descrença da moda brasileira como cultura.
Criatividade na moda. A moda brasileira não tem continuidade, firmeza ou pulso, segundo Gloria Kalil. A crítica de moda aponta a falta de investigação e empenho dos profissionais de moda em analisar, pesquisar e priorizar a criatividade como foco para o desenvolvimento da moda brasileira. “ Evidentemente, criatividade não é abstrata, idealizada, nem é mágica. Trata-se de um ambiente cultural, questão de acesso, de identificação e identidade.” A originalidade e possibilidade de lançar moda não são utopias, podem ser alcançadas se o trabalho tiver base informativa, não apenas referências, ou seja, cópias.
Os profissionais de moda não podem ficar abitolados à idéia que uma criação somente é possível com uma referência imagética. O estudo de textos, e a possibilidade de traduzir as palavras em roupas, indicarão aos novos profissionais o direcionamento para o surgimento da moda brasileira como parte da moda mundial. A moda brasileira, por sua vez, não seria apenas uma terminologia, mas faria parte de uma junção cultural e social mais ampla, podendo se afirmar e defender seu conceito.
Os profissionais de moda e de comunicação dentro da área estão na maioria das vezes descontextualizados, principalmente porque são profissionais sem base didática.
Cabe aos novos profissionais mudar essa face da moda no Brasil, deixando os pré-conceitos para trás e valorizando o que é criado no país, além da real preservação do meio ambiente, não a utilização de uma temática como mercantilização.

